O ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal
(STF), retirou nesta terça-feira (1º) o sigilo de documentos da investigação
que reúne registros da relação entre o ministro Alexandre de Moraes e Daniel
Vorcaro, dono do Banco Master. O material apresenta mensagens, encontros e
negociações envolvendo o banqueiro e o escritório de advocacia de Viviane Barci
de Moraes, mulher do ministro.
O documento é uma Informação de Polícia Judiciária de
Análise (IPJ-A), elaborada pela Polícia Federal (PF) a partir de dados
extraídos do celular de Vorcaro, apreendido durante uma operação. O relatório
foi encaminhado a Mendonça no último dia 27 e analisa, entre outros pontos,
contatos do banqueiro com pessoas ligadas a uma suposta rede de influência.
Segundo a PF, o celular de Vorcaro tinha quatro registros
diferentes para o mesmo número de telefone: “Alexandre de Moraes BRASILIA”,
“Novo”, “STF TSE NOVO” e “Eu STF”. O número foi compartilhado com Vorcaro por
Fábio Faria, ex-ministro das Comunicações, em 26 de dezembro de 2023.
A investigação também encontrou mensagens encaminhadas por
Vorcaro ao contato identificado como “Alexandre de Moraes BRASILIA”. De acordo
com o relatório, o banqueiro escrevia textos no aplicativo de notas do celular,
fazia uma captura de tela e enviava a imagem pelo WhatsApp.
A PF cruzou os horários dos registros e identificou que, em
alguns casos, o envio da mensagem ocorria poucos segundos depois da captura de
tela. O número associado ao contato foi confirmado a partir dos dados extraídos
do aparelho.
Contrato de R$ 108 milhões
O relatório detalha também a negociação de um contrato entre
o Banco Master e o escritório Barci de Moraes, ligado a Viviane Barci de
Moraes.
Segundo contrato
A investigação também encontrou um segundo contrato, datado
de 12 de maio de 2025, entre o escritório Barci de Moraes e a empresa Viking
Participações.
Nas tratativas, o advogado de Vorcaro apresentou duas
alternativas para a transferência de ativos. A primeira previa a entrega dos
bens e a transferência das quotas, com possibilidade de recompra por R$ 1 caso
o contrato de honorários não fosse cumprido. A segunda condicionava a
transferência das quotas ao cumprimento do contrato.Encontros entre Moraes e
Vorcaro
Além das negociações envolvendo o escritório, o relatório
apresenta registros de encontros entre Vorcaro e Alexandre de Moraes.
Em dezembro de 2023, Fábio Faria compartilhou com Vorcaro o
contato de Moraes. No dia seguinte, os dois trataram de um almoço de “Alex” em
Campos do Jordão. Vorcaro enviou a localização do hotel onde o encontro
ocorreria e orientou funcionários sobre a recepção.
O material também registra episódios posteriores. Em 19 de
março de 2025, Vorcaro escreveu a uma pessoa próxima que estava “com o
Ministro”. Pouco depois, informou a outra pessoa que estava “com Moraes aqui”.
Na madrugada seguinte, relatou que outras pessoas haviam chegado para “falarem
com Alexandre”.
Mensagens sobre a investigação
O relatório também analisa mensagens enviadas por Vorcaro ao
contato associado a Moraes em outubro e novembro de 2025.
Segundo a PF, as mensagens foram produzidas no aplicativo de
notas, capturadas em imagens e enviadas pelo WhatsApp. Os investigadores
identificaram que o destinatário estava salvo no aparelho como “Alexandre de
Moraes BRASILIA”.
Em uma das mensagens, registrada em 30 de outubro, Vorcaro
tratou da necessidade de interlocução com autoridades diante do avanço das
investigações. Em outros registros, o banqueiro perguntou sobre possíveis
medidas judiciais e sobre a possibilidade de adiamento de ações contra ele.
A PF também encontrou uma mensagem em que Vorcaro
questionou: “médio a grave seria busca ou quebra de sigilo?”. Em seguida,
perguntou: “Mas pedido deferido por parte deles? Algo que dê pra bloquear?”
Em outro registro, de 15 de novembro, dois dias antes de sua
prisão, Vorcaro perguntou: “Acha que segunda tenho que estar fora?”
Em nota, o escritório Barci de Moraes afirmou que Alexandre
de Moraes analisou o primeiro contrato a pedido do setor de compliance, para
verificar a existência de eventual impedimento legal. Segundo a manifestação,
não havia previsão de atuação do escritório no STF em processos relacionados ao
Banco Master e, por isso, o contrato foi firmado e os serviços foram prestados.